terça-feira, 20 de dezembro de 2011

meu filho Miguel

Como é que se explica a alguém a dor da saudade de um filho que nunca conhecemos fora da nossa barriga?
Não sei explicar...
Nem a mim própria sei explicar ou mesmo perceber...
Perder um um filho, mesmo que para alguns seja apenas um feto, deixa um buraco que nem nada nem ninguém consegue preencher. E de vez em quando dá aquele aperto...
Uma palavra, uma imagem num contexto muito diferente, fazem tudo voltar ao de cima, como se tivesse sido ontem...
Hoje foi um desses dias...
As lágrimas a correr pela cara, com uma força que parece que acabou de acontecer tudo outra vez.
Um soluçar sem fim...
Um desespero que se apodera de mim...
Procuro o meu Gonçalo, preciso de o agarrar, aperto-o junto ao meu peito com muita força.
Ele não diz nada.
Fica encostado ao meu peito como a perceber que eu preciso do miminho dele neste momento.
É ele que me acalma, sem me fazer perguntas...
E com ele ao colo acendo uma vela ao Miguel e mando um beijo para o céu, dizendo que nunca o vou esquecer e que o amo muito.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O nascimento prematuro do Gonçalo - 3-parte

No segundo dia estava tudo bem comigo e fui "libertada" para a enfermaria.
Fiquei a primeira noite num quarto de apenas 2 mães, em que ambas não tínhamos os nossos bébés ao pé de nós. Foi bom porque nos apoiámos bastante. Depois da mudança para a enfermaria tive finalmente liberdade para ir visitar o meu filhote quando quisesse.
Ainda a recuperar da cesariana não era muito fácil porque o serviço de neonatologia ainda é longe da enfermaria.
Mas sempre que conseguia lá ia eu.
Entrei também noutro mundo, o mundo da amamentação sem bébé...
O Gonçalo com apenas 31 semanas de gestação não sabia mamar...mas por ser pequenino precisava do leitinho da mãe mais do que tudo.
Fiquei nessa altura a saber que o leite de mães de bebés prematuros é ainda mais rico do que os das mães de bébés de termo durante pelo menos 15 dias. Como a natureza é esperta!!!
Tive de aprender a estimular o peito e tirar o leite com uma máquina própria para isso.
Na MAC existem essas máquinas disponíveis nas enfermarias assim como kits esterilizados para "receber" o leite. E no segundo dia mesmo após uma cesariana consegui tirar uns 20ml de leite para levar ao meu filhote.  :)
Lá fui eu toda orgulhosa entregar o leitinho na unidade quando soube que o Gonçalo não estava ainda pronto para receber o meu leite. Precisava de uns dias...
Fiquei tristinha mas percebi que ele tinha um tempo diferente do meu...
Continuei a tirar sempre que podia para armazenar este leite que iria ser precioso para o meu menino quando o tempo dele chegasse.
Aqui percebi que entrei num mundo completamente desconhecido para o qual nenhum curso de preparação para o parto e amamentação nos prepara...
Felizmente o ambiente na MAC é muito amigável e não foi muito dificil perceber como tudo se processava.
Nos primeiros dias eu não estava bem em mim, acho que tinha muita adrenalina a circular no meu sangue, mais provavelmente muita oxitocina, porque eu sentia-me MUITO BEM.
Eu sentia-me pronta para tudo. Eu não me lembrava praticamente que tinha sido operada, isso era secundário. Eu só pensava no meu filho que estava finalmente cá fora e que agora iria correr tudo bem.
Ao segundo dia de vida do meu filho começaram os sustos... Começou com episódios de taquicardia de mais de 300 batimentos por minuto... sem razão aparente...
Foi chamada uma cardiologista pediátrica da cruz vermelha para avaliar.
Felizmente esta não encontrou nenhum problema fisico que justificasse o problema.
Podia ser só um coração prematuro a "portar-se" mal...Infelizmente voltou a repetir estes episódios, a deixar o pessoal de enfermagem em pânico, o que não nos deixa a nós pais muito descansados...
Cardiologista voltou a ser chamada... E após mais alguns episódios medicou por precaução o Gonçalo e felizmente nunca mais voltou a ter nenhum episódio... Ainda hoje faz medicação e é seguido na Cruz vermelha que têm sido 5 estrelas connosco.
Está com a mesma dose desde que começou a medicação, ou seja aos poucos está a fazer o desmame, já que com o aumento de peso a medicação acaba por ser cada vez menos.

Ao 4ºdia depois de muito implorar tive alta.
A cicatriz ainda estava a libertar liquido  e estavam com medo...
Eu prometi que se o penso ficasse sujo eu iria às urgências no dia seguinte.
Eu sei que o mais normal talvez fosse eu querer ficar ali, mais perto do meu filho.
Mas eu precisava da minha casa. É que eu já estava internada antes mesmo do meu filho nascer, eu estava cansada de hospital, precisava do meu ambiente, das minhas coisas, dos meu horários e o meu maridito também precisava de mim, e eu dele.
Foi óptimo ir para casa naquela 6feira ao fim do dia.  Ainda fomos à procura de um sitio para comprar uma máquina para extrair leite para eu continuar a estimulação em casa e garantir que não faltava leitinho para quando o meu filhote precisasse. Sábado e domingo foi mais para o descanso. Quando eu cheguei a casa é que eu me lembrei que tinha sido operada de barriga aberta e que ainda não conseguia fazer tudo aquilo que eu queria...
Só fomos ver o Gonçalo à tarde porque eu também não aguentava muito tempo lá, não tinha posição para o corpo.
A partir de 2ºfeira comecei a ir de manhãzinha. O meu maridito foi trabalhar mas antes às 7h da manha estavamos com o nosso filhote mais lindo :) O pai foi trabalhar inspirado com as imagens do seu filhote. E eu fiquei pela MAC a perceber como tudo funcionava. O Gonçalo fazia 1 semana e continuava nos cuidados intensivos, mas já se falava numa possivel passagem aos cuidados intermédios.
(continua)